5 de fev. de 2013

SOZINHA

pra onde foi tudo isso que eu vejo nas fotos?
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eu era o seu docinho
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olha só, dois bebês, tão novinhos!
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olha só nossos olhinhos: somente pertenciam a nós.
os meus eram todos seus e vice-versa.
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olha como sorríamos felizes!
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e mais sorrisos, tão sinceros...
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você é tão bonito, leãozinho.
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muita coisa.
TRECHOS DO LIVRO 
AGORA É QUE SÃO ELAS
PAULO LEMINSKI


(...) o fatal é que cheguei e disse aquilo, aquele palavrão que significava a irremediável intromissão da minha vida na vida daquela figura.
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Mulher tem que ser abordada com vinte e cinco canhões de bolhas de sabão (...)
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Inteligência em homem é que nem pau duro, mulher alguma resiste.
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E tudo empalideceu, como, como é que foi mesmo que eu não dei pela ausência de Norma, aquela coisa gostosa entre as mulheres, sorvete reinando sobre meu reino de prazer com um morango por coroa?
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(...) meu Deus, como a memória é solúvel em álcool!
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Engoli, mandando meu coração voltar para as profundezas donde tinha emergido, que lugar de coração é lá embaixo.
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A gente se foi a primeira vez numa porção de coisas. Sei lá que importância isso tem, mas as pessoas tendem a atribuir virtudes mágicas às primeiras vezes. Seja lá do que for. E assim primeiras vezes fomos, Norma e eu, muitas primeiras vezes.
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Desde que comecei minha história com Norma, nunca mais um dia de sossego.
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- Com por que é mais caro, e só depois das cinco.
Era a origem de todos os males da pele, do intestino e da cabeça. O mundo ia muito bem até nascer o porquê. E foi me dizendo logo de cara, se eu queria atingir alguma coisa tinha que me livrar desse vício.
No começo, é difícil. Sem por quê, viver, arrastar esses dias, um atrás do outro, é subir uma escada sem corrimão, entrar pelado no mar, andar no mato de olhos fechados, dormir ao relento e sem cobertas. Mas, enfim, a gente acaba se acostumando a qualquer coisa. Me acostumei a viver sem perguntar por quê. E a só frequentar as questões periféricas, como?, quando?, onde?
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Um dia, sonhei com ele. No sonho, era o dono de um bar, onde eu chegava e perguntava:
- Tem cerveja?
E ele respondia.
-Não.
- Tem certeza?
- Também não.
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Um saco esses papos que a gente ouve nessas festas, meros pretextos para praticar em voz alta o nome dos povos, as feéricas notícias de jornal, esse saber que pensa saber tudo apenas porque sabe o que todo mundo sabe.
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Durante um tempo, cheguei a pensar que o tal Bernardo não existia, não passava de uma figura imaginária, um ente de razão operacional, inventado por Norma para manter, pela competição, o meu interesse aceso nela.
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Não me interpretem mal, nunca soube o que quer dizer ciúme. Afinal, não se pode chamar assim esses ímpetos que me vêm, de vez em quando, de botar Bernardo para derreter em azeite fervendo.
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Oi, tesão, e esse pau, continua durão?
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De noite, me perguntou onde eu queria dormir. Com você, é claro, eu respondi. É por isso que eu adoro você, ela falou. Mas faz tua cama aí nesse canto, eu durmo aqui no sofá mesmo, legal pra você?
- Norma, que é que está acontecendo? Que história é essa? Vamos conversar um pouco. Onde é que foi parar tudo aquilo que havia?
- Tudo aquilo, o quê?
- Ora, você sabe, não se faça de boba.
- Você deve estar louco. Nunca houve nada entre nós.
- Essa não, Norma. Invente outra.
- Se houve, prove.
Eu não podia provar nada. A única evidência que eu tinha de que TINHA HAVIDO ALGUMA COISA ENTRE NÓS, esse nó no peito, essa sensação de que tinham colocado uma rolha no gargalo do meu coração, e essa vontade de apertar seu pescoço devagarzinho até fazer o cérebro sair pelas orelhas que nem bosta num moedor de carne. Ou bater nela com um maço de notas de mil, até ouvir ela gritar Bernardo. Uma navalha, por favor.
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Belo começo pra um candidato à sabedoria, nem sabia como conseguir o que os galos, os antílopes e até os polvos conseguem sem maiores histórias.
Insuportável, aliás, que a razão de ser da minha vida fosse outra pessoa, pessoa, por sinal, que eu estava longe de saber dominar, quem dera!, se, pelo menos, a influenciasse.
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- Você não deixar as diferenças existir!
- Existir, não, professor. Existirem.
- Está bem. Não deixar as diferenças existirem!
- Não, professor, ainda não. Não deixa as diferenças existirem.
- VOCÊ NÃO DEIXA AS DIFERENÇAS EXISTIREM!
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Parecia que nada ia adiante. TUDO TINHA MUDADO, está certo. Mas tudo só mudava do parado para o parado. Minha relação com Norma passava meses sem que acontecesse nada. Não era o pior dos nadas, podia haver piores. A gente se via, até fizemos algumas coisas, mas nada podia disfarçar aquele cheiro de queimado, a gente cultivando aquela falta entre nós, duas pessoas cuidando juntas da mesma planta carnívora.
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Pensei que ia morrer de tanto amor, Norma estava divina.
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E tudo aquilo que lhe contei sobre a minha primeira relação com uma mulher, aquela que estava menstruada, lembra?, e eu tirei o pau e pensei que a tinha matado?
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Nessas altura, o professor, comovido, já estava deitado no meu colo, soluçando, e eu fiquei alisando seus poucos cabelos brancos, e dizendo:
- Calma, calma, meu velho. Tudo vai se arranjar, você vai ver. A vida não é tão péssima assim, veja tudo com olhos de criança, pense positivo, o pior já passou, o Natal está aí, e o amor até existe.
Quanto mais eu falava, mais o velho soluçava no meu colo, soluçava tão convulsivamente que, temendo alguma fratura grave, levantei um joelho, no joelho levantando a cabeça de Propp, como quem retira uma azeitona de dentro da sopa. E espinafrei:
- Qual é, cara? Vai ficar nessa a noite toda? Pensando o quê? Que meu colo é banco de praça?
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- Tem uma coisa que eu não te contei ainda.
Tiro de carabina na minha orelha esquerda, facada nos rins, soco de enfarte, agulha de derrame cerebral, bem-vindos! Por que é que Norma tinha que vir, de vez em quando, com aquele, com aquela, com aquilo, tem uma coisa que eu não te contei ainda? Vai ver era por isso que eu vivia com aquela sensação pavorosa de que alguma coisa horrível ia acontecer a qualquer momento.
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As coisas que eu sinto hoje estão além das palavras.
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E começou a chorar, coisa que eu detesto. A gente não sabe o que fazer. Dar um soco na nuca? Chamar os bombeiros? Gritar "o senhor é meu pastor, vamos pastar?".
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- A cada dia que passa as coisas vão ficando cada vez mais complicadas, à medida que o tempo vai passando, passando, passando, vão se complicando ainda mais, mais e mais. É por isso que as pessoas morrem, morrem, morrem. Morrem porque não aguentam mais tamanha complicação, complicação, complicação.
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a alma só cresce
quando se machuca
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- São assim, Propp falou, tentando me consolar da expressão de absoluta calamidade pública que tinha desabado em cima da minha cara.
- O que é que são assim?, ainda achei forças de perguntar.
- As coisas.
- Ah! As coisas! Claro, as coisas são terríveis, gani, enquanto olhava em volta, procurando alguém que eu pudesse cortar a golpes de gilete.
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Eu não quero a vida eterna, professor. EU QUERO O INFERNO.


3 de fev. de 2013

23 de jan. de 2013

De repente sinto essa vontade que era tão coisa sua. Isso de querer, de precisar sentir a natureza. O sol se pondo, o vento balançando meus cabelos. Restos de você em mim. Refúgio. Fuga. Libertação.
-
E como conter os milhares de pensamentos que cruzam minha mente ao assistir a um pôr do sol sozinha? Aliás, conter pra que?
-
Coisas bem clichês.
Por que estou aqui? Por que seguimos esse ritmo? Por que fazemos o que fazemos?
Espaços delimitados, rotinas, planos, meios para concretizá-los, blábláblá, toda essa coisa insatisfatória.
-
Tão bom se fosse só ficar no alto de um prédio olhando o mundo, sentindo a brisa.
-
Gritei e achei engraçado. Ri sozinha. Quantas pessoas ouviram?



20 de jan. de 2013

Zeca Baleiro

Eu gosto de você com uma força bruta que eu não entendo bem.
-
Solidão não cura com aspirina.
-
Baby, I'm so alone
Vamos pra Babylon
-
Pra onde flores eu vou
-
Sofrer é da vida, querida.

14 de jan. de 2013

De noite, com chuva, ao som de Radiohead.

Sou prisioneira da minha própria confusão.
-
Ter na vida algo de muito bom e depois perder é como comer um pedaço de cajuzinho e ser obrigada a parar, ficando com aquela cara e aquele gosto de quero mais, de "por quê?", de "volte aqui".
-
A fotografia me tira do fundo do poço.


Leminski

Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado *-*
(...)
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

*

só o durante dura


    Cadernos do Leminski - Exposição no Museu Oscar Niemeyer.

3 de jan. de 2013

1/2 | Acabou-se o que era doce.


Rápido. Inesperado. Grosseiro. Mas útil. 
Agora virou raiva*
-
*Amor, então, 
também, acaba? 

Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 
Ou em rima.
(Leminski)

1 de jan. de 2013

2013


Vagalumes Cegos | Cícero

Vem cuidar de mim
Vamos ver um filme
Ter dois filhos
Ir ao parque
Discutir caetano
Planejar bobagens
E morrer de rir
*
Fica bem aí
Que essa luz comprida
Ficou tão bonita
Em você daqui
*
Fica bem aí
Que essa luz comprida
Ficou tão bonita
Em você daqui

27 de dez. de 2012

19 de dez. de 2012

Sobre dança.

‎"A dança é ainda mais marginal para o pensamento que acredita no mundo pelo olhar. A dança sustenta a experiência dela mesma (como coisa no mundo) na base dos sentidos sobre os quais podemos dizer muito pouco. Problema da natureza do dizer diante da natureza dos sentidos. Abismo do pensamento sem dialética, não dançante. A dança talvez possa ser expressa na imagem do cão que corre em torno de si mesmo, mordendo a própria cauda, e a razão a olhar, dizendo: falta de sentido, vazio de sentido."
-
"Tais ideias me dão a sensação de que abrimos gavetas secretas. Gavetas que não guardam pensamentos, mas que os produzem, pelo simples fato da abertura. Seria esta a dança?"
-
"A dança é o sinal claro de um poder (...) que ultrapassa todos os outros. Se todos pudéssemos dançar, não precisaríamos falar. Só a fala poética seria análoga da ação gerada na dança."
-
"A esfera da arte é de tal modo apartada da vida que o reino da estética até parece coisa de metafísica mesmo. Quando tudo vem do real não parece real. Efeito de estranheza inquietante."
-
"A dança me parece uma retradução do corpo totalmente corajosa, não porque, nela, limites, dores ou sofrimentos sejam suprimidos, mas porque ali a alegria do corpo (não necessariamente a da alma ou qualquer coisa semelhante) se anuncia invadindo a lógica, os costumes, as convenções, e a dor de existir se torna plena e banal a um só tempo."
-
"A dança é um pensamento do corpo."
.
.
.
Trechos extraídos do livro DIÁLOGO | DANÇA - Correspondências entre Marcia Tiburi e Thereza Rocha.



16 de dez. de 2012

Do livro "O Amor é Poá", da Clarissa Corrêa

O amor é uma eterna tentativa. É a busca por mais uma bolinha.
❤
O amor muitas vezes só complica tudo. Guarde bem essa frase no bolso da calça.
❤
Amor tem que ter conversa, tolerância, doses de paciência e falta de nojo. Porque pra amar tem que aceitar a parte suja do outro. Acho que é isso: amar é não ter nojo.
❤
A saudade de um amor é uma das coisas mais doídas - e bonitas - da vida.
❤
O teu olhar me dá mais coragem.
❤
O amor é você perceber que não anda mais sozinho. Que tem alguém pra abraçar quando o mundo está grande demais. (Own!)
❤
Descobri: amor é quando a gente quer ficar tão perto que chega a ter vontade de engolir o outro de vez em quando.
❤
Tirar a sorte grande é acordar e sentir o cheirinho de quem a gente ama.
❤
Quando tudo dá errado e eu te vejo, não sei explicar, parece que as coisas começam a dar certo.
❤
E depois de um dia cansativo, chegar em casa e encontrar um bilhetinho escrito "te amo". Isso faz tudo valer a pena.
❤
Que nome tem esse negócio que deixa o coração com um sorriso de orelha a orelha?
❤
Tenho esse lado infantil de correr para o colo da mãe, acender a luz do corredor e não caminhar no escuro. Gosto da luz, do mundo claro.
❤
Nós somos o reflexo das nossas referências.
❤
Eu minto pra não magoar e pra gente que eu não quero que saiba da minha vida.
❤
Quando a gente tá sozinho fica procurando coisas pra preencher o vazio: uma música, uma bebida, um livro, uma história bonita que nos salve.
❤
Acredito nisso, a gente dá o que recebe, a gente passa pelo que tem que passar. Tudo volta, por isso cuido do que faço. Quero coisas boas.
❤
Não me canso de me perguntar: por quê? Por que a gente tem que abandonar o lado despreocupado e quase infantil de viver? (É, por quê?)
❤
A lembrança tem gosto doce porque a memória tem mania de esquecimento.
❤
A sensação de eterno dá conforto, acalma os ânimos e oferece um cobertor para os sonhos.
❤
Sinto falta daquela alegria que, de tão grande, mal cabia nos meus braços.

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